• Rodrigo Goncalves

Ioda caboclo

Minha esposa é professora da rede estadual. Ela passou a carreira toda escarafunchando oportunidades de material didático nos ferro-velhos da região e acabou ficando conhecida no bairro.


Tem um senhorzinho que passa lá em casa e grita: "Professora!". É um senhor de baixa estatura, moreno, muito magro e envelhecido. Pela aparência eu daria uns 85 anos de idade, mas descobri que tem apenas 68 anos de muito sol, trabalho braçal e sofrimento. Ele é insistente, não para de gritar enquanto a minha esposa ou alguém não o atende.


O senhorzinho chega sempre na hora do nosso repouso semanal. Sabe aquela hora que você se joga no sofá, põe Startrek no Netflix e não quer pensar em nada? Exatamente nesta hora que ele grita: "Professora!". A precisão é tão grande que pra mim já virou um ser mitológico, igual um saci ou um duende. Ele se materializa dos sinais de internet que trazem o Spock ou o comandante Adama.


Nunca pediu dinheiro sem oferecer algo em troca. Já limpou a graminha que nasce entre as pedras da calçada, já podou árvore, já carregou entulho (tenho até medo de pensar onde jogou), já trouxe pedras para jogar no jardim, etc. Ele vem até nós para vender seus serviços, nunca para pedir dinheiro.


Um dia destes, apareceu lá em casa, bem na hora em que eu estava revendo um episódio de Battlestar Galactica. Eu disse: Ivone! O "Professora" está te chamando! Vai lá!


Ela foi, mas demorava a voltar. Olhei pela janela e ela estava no portão ainda conversar. Demorou tanto que parei o que estava fazendo e fiquei esperando sua volta para entender o que estava acontecendo.


O "Professora" tinha ido até minha casa para contar que o filho dele morreu. Ele tinha um filho de aproximadamente 50 anos que trabalhava como pedreiro e que sofreu uma parada cardíaca fulminante. Desta vez sua visita tinha outro objetivo. Veio até nós para chorar. Precisava compartilhar o peso daquele sofrimento com alguém. Contou o caso para a Ivone, escutou algumas palavras de consolo, chorou e foi embora.


A minha esposa contou-me emocionada a situação do "Professora". Fiquei congelado na frente da TV pois uma mistura de sentimentos me tomou de assalto. A única coisa que consegui falar foi: "Nossa... Judiação. Coitado...". Ela escutou, olhou para mim com ternura, e entrou pra dentro de casa.


"Despausei" o episódio na TV, mas não o assisti. Fiquei pensando o quão pequeno eu era perto do "Professora". Fiz uma simulação mental e percebi que não suportaria a dor que ele suporta. Para aprender alguma virtude nesta encarnação, precisei ser educado e protegido. Sem o estudo da filosofia e do Espiritismo, não suportaria as provas da vida e não conseguiria ser produtivo.


Alguns dias depois ele voltou e como a Ivone não estava, eu o atendi. Com a mesma disposição e energia para o trabalho de sempre, queria saber se já tínhamos comprado a terra vegetal para arrumar o jardim. Não pediu nada, não comentou nada sobre sua vida pessoal, e estava com a mesma aparência esquálida e enrugada de mestre Ioda sertanejo de sempre. Ofereci um litro de leite como adiantamento do serviço, que o "Professora" aceitou com um sorriso e desapareceu na esquina.


Os filósofos estóicos ensinam a enfrentar situações difíceis e tomar decisões se perguntando o que uma outra pessoa, que tem virtudes que você admira ou deseja ter, faria em seu lugar. Marcus Aurelius, imperador romano, por exemplo, sempre se perguntava o que seus mestres fariam em seu lugar.


Jesus é o modelo ideal para todos nós. Mas eu não gosto de usar o método estóico com Jesus. Eu me sinto muito pequeno perto dele e aí fica difícil acreditar que eu conseguiria atingir os seus padrões de comportamento.


Quando alguma dificuldade pessoal ou sentimental se coloca no meu caminho e eu preciso continuar produtivo, trabalhando, criando e gerando valor eu me pergunto: O que o "Professora" faria no meu lugar?



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