• Rodrigo Goncalves

Capitalismo 101 em Atlantis

Atualizado: 13 de Jan de 2020

Esta é uma história fictícia, baseada em fatos reais, que se passa no universo imaginário do livro "A revolta de Atlas", de Ayn Rand.

Eu aprendi como o capitalismo funciona com meu pai, Paulo Artur. "Artur de pobre, sem H", dizia ele.


Quando meu pai mudou-se para Atlantis (veja nota no final do texto), montou uma pousada. Ele tinha um dinheiro que poupara e resolveu investir em algo para a sua aposentadoria. Desejava um trabalho que amasse, que fosse simples e rentável. Veio então a idéia de montar um pequeno hotel no centro da cidade. Minha mãe não estava muito confortável com a idéia, mas conformou-se. Num determinado momento surgiu a oportunidade de comprar um imóvel super bem localizado por um preço razoável. Meu pai, que já estava com os planos em mente e parte do dinheiro poupado, com ousadia e empenho, comprou o imóvel e deu início à construção da pousada.


Duvidoso da rentabilidade do empreendimento perguntei-lhe: "você já fez o plano de negócios?" A cidade era pequena e eu estava um pouco cético do sucesso da empreitada. Para minha surpresa ele respondeu: "claro que não. Quero um lifestyle business. Sei que se eu colocar na planilha a conta não fechará. Também sei que depois que eu começar, vou fazer dar certo. Além disto, preciso imobilizar o dinheiro que tenho, senão ele some". Entendi perfeitamente o ponto de vista dele. Há questões práticas e humanas do empreendedorismo que a gente só aprende mesmo na vida.


A construção da pousada exigiu grande esforço de meus pais. Meu pai ainda estava trabalhando fora de Atlantis e coube à minha mãe ser a gerente da construção e cuidar dos pedreiros. Se você já experimentou uma reforma ou já construiu uma casa sabe como é... Meu pai fez um contrato à mão, combinando uma data e um custo. O pedreiro furou os dois. Eles renegociaram o contrato. O pedreiro deu um monte de justificativas. Ao final, acharam um meio termo que ficou ruim para os dois, ou seja, justo.


Meu pai e minha mãe demoraram um pouco para pegar o jeito do negócio. Erraram em uma porção de coisas mas, enfim, depois de dois anos, o negócio estava parando em pé. A principal fonte de receita da pousada eram os empregados da mina de cobre do Francisco d'Anconia. Viajantes, empregados, fornecedores, todos eles acabavam ficando na pousada do meu pai porque o outro hotel da cidade era muito antigo e com serviço ruim.


Tudo ia bem até que algo inesperado aconteceu. A Dagni Taggart resolveu entrar no negócio de hospedagem também. Como ela estava muito capitalizada, fez um hotel novinho, bem perto da sede da mina de cobre. Para piorar a situação, fez um contrato casado de transporte e hospedagem e deu desconto no transporte em sua ferrovia condicionado a uma ocupação mínima em seu hotel. Do dia para a noite meu pai ficou sem nenhum cliente!


Lembro-me dele contando isto e descrevendo a sensação de que o chão havia escapado dos seus pés. Ele não tinha antecipado este risco. Chegou a ir na d'Anconia conversar com o suprimentos, mas foi super mal recebido e nada mudou. Por sorte ele era um homem prevenido e tinha algumas reservas.


Em momentos de desafios é que o homem prova sua genialidade. Para não tomar mais gols, ao invés de re-escalar o time ou abandonar o campo, ele mudou a regra do jogo.


Por esta época estava começando um fluxo de peregrinos religiosos passando por perto de Atlantis. Ainda não havia um caminho 100% definido. Eles partiam de uma determinada cidade em direção a um templo famoso, mas cada peregrino fazia um caminho diferente e eles ficavam na internet debatendo as vantagens e desvantagens de cada alternativa.


Meu pai buscou no Google e descobriu que na Europa um peregrino necessita comprovar que fez, caminhando a pé ou a cavalo, de forma ininterrupta os últimos 100 km da peregrinação. Esta era exatamente a distância de Atlantis até o templo. Então foi até à associação dos peregrinos, que tinha acabado de nascer, para propor que Atlantis fosse o último ponto de onde um peregrino que fosse reconhecido pela associação pudesse partir. Propôs também que todas as outras opções de caminho passassem por Atlantis. Assim, seria fácil e barato apoiar o fluxo de pessoas e prover serviços ao longo do caminho.


A associação recebeu a proposta com ceticismo. Mas meu pai foi insistente. Investiu no mapeamento dos caminhos, ajudou a associação a se organizar, criou serviços ao longo do trajeto, investiu em sinalização, etc. Além disto, fez lobby com o prefeito de Atlantis. Como a estrutura do estado ali era mínima, a prefeitura não tinha nenhum recurso para oferecer. Mas o prefeito ajudou a estabelecer conexões e algumas pessoas acabaram por ajudar a criar mapas e atuar na internet, interagindo com os futuros peregrinos, convencendo-os a fazer o caminho por Atlantis.


Como a pousada do meu pai era super bem localizada, bem em frente à igreja, os peregrinos naturalmente foram todos para lá. O hotel da Dagni era muito orientado aos profissionais da mina. Não tinha o apelo e o carisma que o turista religioso buscava. O movimento começou pequeno, mas depois de 2 anos já estava lotando a pousada nos finais de semana, férias e feriados.


Rapidamente surgiram concorrentes. Outras pousadas brotaram do nada. Meu pai então investiu em construir mais quartos. Assim ele conseguiu diluir os custos operacionais, ser competitivo e manter a pousada no azul.


Com meu pai aprendi que capitalismo é selvagem, e por isto mesmo é justo. Ninguém tem privilégios. É um sistema para quem produz e cria valor. Por mais simples que seja o negócio, não há descanso. Mas é este movimento que gera vida e prosperidade. Meu pai trabalhou muito, mas se divertiu fazendo o que amava. Ele percorria estradas de terra fazendo mapas, conversava com os peregrinos sobre a vida e o universo, desenhava as plantas da reforma da pousada, coordenava os funcionários, treinava uma gerente, etc. Sua vida era repleta de movimento e se enchia de luz toda vez que ele conseguia inserir uma pessoa carente no mercado, seja como funcionário ou como prestador de serviços.


Também aprendi que quando o governo não se mete, os indivíduos competentes e criativos encontram caminhos e toda a sociedade se beneficia. Meu pai faleceu em 2013, mas deixou seu legado. Hoje o turismo religioso é uma grande fonte de renda em Atlantis. Muitas famílias vivem prestando serviços para os peregrinos. Sempre alguém inventa um serviço novo para oferecer: massagistas, artesanato, apoio na caminhada, etc.


Se fosse no Brasil, a primeira reação provavelmente seria fazer um lobby na prefeitura para uma ação anti-trust ou algo assim. Com certeza apareceria um deputado pedindo propina para passar uma lei de "Equalização das Oportunidades". O Estado iria intervir e hoje estariam todos pobres dividindo as migalhas do turismo de negócio da mina de cobre.


NOTA:

Atlantis é um lugar onde o sistema econômico é o capitalismo em sua forma mais pura. O governo de Atlantis se limita aos poderes de policia e justiça. A constituição e código civil é simples e baseado em 3 princípios: direito à vida, liberdade e propriedade.


Em Atlantis não existe leis trabalhistas, justiça do trabalho, financiamento público de campanha, serviço médico gratuito (SUS), etc. Serviços como coleta de lixo, água e esgoto, luz, etc, são todos fornecidos pela iniciativa privada.


Só há um único imposto, o IVA, que é muito baixo. É a menor carga tributária do planeta.


Para mais detalhes sobre Atlantis, veja: https://www.conservapedia.com/Galt's_Gulch


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