• Rodrigo Goncalves

Capitalismo e Espiritismo

Atualizado: 25 de Fev de 2020

Parece ser impossível ser feliz em um mundo onde as relações parecem orbitar o dinheiro e o lucro. Precisamos rejeitar o capitalismo ou fazer algum tipo de revolução social para que a sociedade seja mais justa e para que as pessoas tenham oportunidades e possam ser felizes?


A resposta rápida é: não.


Entenda o porquê e o papel do capitalismo em nosso caminho como seres imortais.


Vivemos em um mundo aparentemente injusto. Ao mesmo tempo que alguns nascem em berço de ouro, outros são "atletas do sofrimento", usando uma expressão cunhada pelo Divaldo Franco. Sonhamos viver um mundo idílico, sem sofrimentos, sem conflitos, sem as expiações e as duras provas do nosso dia a dia. Um mundo sem desigualdades, onde todos vivam fraternalmente em torno do mais alto princípio do bem comum.


Ocorre que, ao longo dos séculos, todas as tentativas de se implementar sociedades coletivistas igualitárias falharam catastroficamente. O resultado sempre foi miséria, morte e destruição. Só para citar alguns exemplos, a implantação da China comunista [1], resultou entre 20 milhões a 70 milhões de pessoas mortas. O mesmo se deu na União Soviética. As estimativas das pessoas assassinadas por Stálin variam entre 20 milhões a 30 milhões [2]. As catástrofes não se limitam ao choque inicial do sistema. Somente entre 1959 e 1961, 20 a 43 milhões de pessoas morreram de fome na China. Todos os sistemas coletivistas, entre eles comunismo, socialismo, fascismo, nazismos e outros, resultaram em genocídio, politicídio, holocausto, assassinatos em massa, repressão, e muitos outros crimes contra a humanidade, travestidos de sacrifício pelo bem comum. Pelo bem da coletividade. [3]


Uma sociedade igualitária não é possível pelo simples fato de que as pessoas não são iguais. Diferentemente do que alguns filósofos pós-modernos pregam, a sociedade é o resultado da soma dos indivíduos, e não ao contrário.


Deus nos criou simples e ignorantes [4] e nos deu a faculdade da razão e o livre-arbítrio para conquistarmos, individualmente, nossa felicidade. Cada um de nós é o responsável pela sua própria felicidade. Ninguém é responsável pela felicidade de um terceiro e nenhum terceiro é responsável pela nossa felicidade.


Jesus nos ensinou que devemos amar ao próximo como a nós mesmos [5]. Pelo nosso caminho passam outros filhos de Deus, travestidos de filhos, familiares, vizinhos, compatriotas, etc. Todas estas almas são nossas irmãs e esperam nosso apoio, mas todas elas são responsáveis por si próprias. Para amá-las e ajudá-las, devemos também cuidar de nós mesmos.


Parece evidente que a busca pela felicidade de uma nação é antes de tudo a busca pela felicidade de cada um de nós. Uma sociedade alinhada com os valores cristãos então é aquela que permite que cada um de seus indivíduos, sem exceção, seja livre para buscar sua própria felicidade e ajudar aqueles que estão ao seu lado na mesma procura. Nenhum interesse coletivo ou de uma maioria pode sobrepor o interesse individual. A sociedade deve, acima de tudo, respeitar as pessoas escolhas individuais de cada um, pois somos todos diferentes e escolhemos formas diferentes de seguir o caminho da evolução.


Assim, o principal atributo de uma sociedade justa e alinhada com o objetivo primeiro do homem que é evoluir moral e intelectualmente, é a liberdade. O único sistema político e econômico que garante, por construção, o direito à vida e liberdade de todos os indivíduos, sem exceção, é o capitalismo. [6] Mais acuradamente falando, o capitalismo laissez faire, ou seja, sem intervenções, em sua forma mais pura.


Em um primeiro momento esta afirmação pode ser chocante. Imediatamente nossa mente começa a se questionar: como que um sistema centrado no lucro e no individualismo pode ser bom? O dinheiro, a ganância e todos os males associados a eles não são os responsáveis pela miséria e sofrimento humano? Como que a solução pode estar em algo tão frio e egoísta como o capitalismo?


Ocorre que o capitalismo, em sua forma mais pura, é tão bom ou mau quanto a lei da gravidade. O capitalismo é uma consequência do livre-arbítrio assim como a gravidade é uma consequência da massa dos corpos.


No capitalismo o indivíduo é livre para criar, produzir, trocar ou poupar o que quiser. Os consumidores são os que pagam para usar o que foi produzido. Para poder pagar é necessário possuir os meios, ou seja, é necessário produzir. Somente os produtores são consumidores. Assim, o capitalismo é um sistema de trabalhadores [7].


Alguns reclamam que o capitalismo causa uma expansão constante. Sempre alguém inventa uma coisa nova ou um novo jeito de fazer as coisas, o que não permite descanso. Gostariam que houvesse estagnação. Mas a vida é movimento. Estagnação é morte. A natureza é movimento e não um jardim do éden onde tudo é pré-existente e estagnado. Conforme nos ensina a literatura espírita, nem após a morte há estagnação. Evoluir é trabalhar continuamente, seja na Terra ou no mundo espiritual.


Competição e o constante movimento do capitalismo é o resultado do livre-arbítrio e da lei de evolução espiritual. A fonte do progresso está na possibilidade das pessoas trabalhadoras, dedicadas e talentosas em conseguir encontrar oportunidades e serem recompensadas pelo seu trabalho e investimento. A fonte do progresso está na liberdade individual e da possibilidade de cada um ser feliz. Mesmo os que herdam riquezas, se não trabalharem, não progridem. Dentro da perspectiva espírita da multiplicidade das vidas, esta realidade se torna ainda mais evidente. A herança não é um privilégio e sim uma oportunidade de aprendizado. A expressão pai rico, filho nobre e neto pobre, atesta esta realidade.


O lucro é o resultado e o reconhecimento do trabalho. Todo homem deve buscar o lucro na extensão de suas necessidades de seu plano de felicidade. O que torna um homem virtuoso não é ter ou não ter lucro, muito menos a sua quantidade. É como ele é obtido e como ele é usado.


Das premissas de respeito à vida, propriedade e liberdade, derivam-se virtudes secundárias como: [10]

  • independência - ser responsável pela sua própria felicidade e não assumir para si a responsabilidade pela felicidade de terceiros

  • integridade - ser fiel aos seus princípios;

  • honestidade - não se enganar e não enganar a terceiros; reconhecer a realidade como ela é e não fraudar ou mentir para buscar o lucro;

  • produtividade - antítese do parasitismo - buscar viver do próprio trabalho e geração de valor.


O capitalismo na sua essência e de forma ideal é então um sistema político baseado em uma ética de virtudes alinhadas com os ensinamentos de nosso amado mestre Jesus.


Assim como uma pessoa tem o direito de buscar seu lucro e sua felicidade, ela tem o direito de renunciá-lo. O altruísmo é, e sempre deve ser, uma opção individual. Somente o próprio indivíduo pode abrir mão de seus direitos ou bens em prol do que quer que seja. Só assim ele é o merecedor dos méritos de sua ação.


Entra aqui um segundo ensinamento de Jesus: "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" [8]. No capitalismo, a economia deve estar separada do Estado, pelos mesmos motivos que levam a separar o Estado da religião.


Todo ataque ao capitalismo em nome da justiça social é na verdade uma imposição de injustiça [9]. Toda forma Estatal de ajudar alguém é sempre uma forma de forçar altruísmo e expropriar ou extorquir um ou mais indivíduos em benefício de terceiros.


No capitalismo, ninguém pode obrigar uma pessoa a renunciar a seus bens ou lucro para ajudar um terceiro, por mais nobre que seja a razão. Desta forma a responsabilidade e também as consequências da ação ou não ação é só dela. Uma pessoa pode escolher se auto-sacrificar pelo próximo. Mas este sacrifício não pode ser imposto pelo Estado. Se você escolher o caminho da renúncia e do auto sacrifício, você sofrerá as consequências e também terá os méritos. É uma escolha de cada um.


No capitalismo ideal não há nenhum tipo de subsídios ou privilégios. Subsídios e privilégios são meios de impor mediocridade e bloquear o caminho do talento e da justiça.


Observe que não há no mundo um capitalismo ideal. O que vivemos hoje é uma economia mista e todas as suas mazelas se encontram nas interferências, regalias e privilégios que são colocados muitas vezes sob a égide de justiça social ou sob princípios de bem comum.


O capitalismo ideal é um sistema simples e desregulado de trocas onde cada um ganha conforme o seu trabalho. O valor do trabalho, dos produtos ou serviços é definido pelos seus pares, produtores e consumidores, em uma relação dinâmica de oferta e procura chamada de mercado. Toda forma de cálculo de preços que não seja a partir das relações de oferta e procura resultam em injustiça, corporativismo, mediocridade e atravancam o progresso da civilização.


A percepção de que o mercado é cruel e sem coração é o atestado da justiça do capitalismo. Apesar do capitalismo nunca ter existido em sua forma mais pura, sempre que foi implementado, trouxe prosperidade e liberdade diretamente proporcional à extensão de sua implementação.


Assim, o amor ao próximo é uma faculdade que deve ser exercida pelos indivíduos, não pelo Estado. O Estado deve existir para proteger o livre-arbítrio e o direito de cada um de nós se auto-sacrificar ou não.


Tendo o entendimento de que a liberdade é a base do capitalismo e que a busca individual pelo lucro, ou o lucro em si, não é uma coisa má, torna-se claro para o espírita algumas formas de agir para sua felicidade e para a felicidade de seus irmãos.


Se você se deparar com uma situação onde na qual seu irmão não consegue subsistir pelo próprio trabalho, pergunte-se o que você pode fazer a respeito. Não se sinta aliviado delegando a responsabilidade ao Estado ou culpando o sistema. Você é o responsável por amar ao próximo, não o Estado. Há sempre formas de usar seu tempo para ajudar, diretamente ou indiretamente. Você pode se organizar com seus pares e agir, ou você pode doar dinheiro, fruto de seu trabalho, para quem age.


Excluindo-se os casos óbvios onde o indivíduo não é capaz de se ajudar, seja por idade ou incapacidade física ou mental, nunca o assistencialismo é benéfico. É necessário promover indivíduos a serem independentes, e viver de seu próprio trabalho.


Assim, nunca doe dinheiro a quem quer que seja como caridade. Compre seus serviços. Ajude a pessoa a ganhá-lo dignamente. Se a pessoa não estiver em posição de prover nenhum serviço no momento, dê o dinheiro em forma de investimento, cobrando retorno futuro. Dê ao seu irmão a oportunidade de cultivar a virtude da produtividade e de se inserir no mercado.


Se você for um empregado, admire e honre a coragem e o empreendedorismo de seus patrões. Tome-os como exemplo. Empreender e gerar empregos implica em continuamente tomar riscos e viver uma vida de estresses. Não inveje o lucro de empreendedores. Pelo contrário, sinta-se feliz por eles e ajude-os a ter cada vez mais lucros sempre que possível.


Mesmo se você preferir não ser um empreendedor, pode ser dono de empresas. Basta investir em ações na bolsa de valores. Ao invés de invejar um empresário, torne-se sócio dele, comprando ações. Lembre-se que com o lucro, também vem o risco. Quando o mercado oscilar e você perder algum pouco dinheiro, admire as virtudes daqueles que movem montanhas para mover economias, colocando em risco sua vida e sua saúde.


O espírita reconhece que a razão é sua principal ferramenta para evoluir e que o principal palco onde a evolução ocorre é aqui no planeta Terra. O espírita sabe que cabe a ele, e somente ele, a conquista de sua felicidade. Ele não depende de ninguém, assim como ninguém depende dele e reconhece que existe uma realidade absoluta escrutinável pela razão, pelos seus sentidos e pelo método científico, e que a fé é uma ferramenta poderosa para o tratamento da complexidade e exploração do desconhecido, mas que deve ser raciocinada.


O espírita não frauda a realidade com interpretações subjetivas da vida e não relativiza valores para escapar de sua responsabilidade perante a si próprio e ao próximo. Ele está em constante reforma íntima, procurando se melhorar e se reinventar. Ele reconhece que o lucro é o meio, uma ferramenta, e não o fim.


O espírita sabe que precisa trabalhar e usar sua racionalidade. O capitalismo é o único sistema econômico que provê justiça e garante liberdade necessária para exercermos o livre-arbítrio, permitindo que cada um de nós encontre seu caminho. As pessoas são livre para produzir e trocar. São livres para buscar sua felicidade.


Reflita, questione tudo e fique bem!

Rodrigo.


[1] - https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=94

[2] - https://mises.jusbrasil.com.br/noticias/113731969/o-socialismo-na-pratica-o-laboratorio-da-morte

[3] - https://en.wikipedia.org/wiki/Mass_killings_under_communist_regimes

[4] - O Livro dos Espíritos - Parte Segunda - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos - Capítulo I: Dos Espíritos - Progressão dos Espíritos - Pergunta 115

[5] - S. MATEUS,22: 34 a 40.

[6] - Capitalism: The Unknown Ideal, Ayn Rand, 1986

[7] - Objectivism: The Philosophy of Ayn Rand - Leonard Peikoff - 1993

[8] - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec – tradução de José Herculano Pires - (Mateus, XXII: 15-22; Marcos, XII: 13-17)

[9] - The Nature of Capitalism and Its Relation to Morality - The Philosophy of Objectivism - Leonard Peikoff - Ayn Rand Institute online course

[10] - Objectivism and the Practicality of Morality: Virtue and Its Relation to Happiness - Leonard Peikoff - Ayn Rand Institute online course





160 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo